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segunda-feira, setembro 28, 2015

Disciplina Política Militante

Pesquisa: Centro de Estudos Gustavo Barroso*

A disciplina política tem dois aspectos: forma e conteúdo. Para entendê-la nada melhor que fazer um paralelo entre a disciplina política e a disciplina militar.

A disciplina militar é impessoal, submete o homem a uma ordem determinada, sem discussão. Enquadra-o. Tira sua roupa, põe outra. Ensina a caminhar de outra maneira, ensinando-o a receber uma ordem e executá-la com Inteligência porém friamente. Guia-se permanentemente pelo superior desde que sai até o cumprimento do objetivo (missão, ordem, tarefa). Se se deteve no caminho há de ser por ordem superior. Isto é, é conduzido, no verdadeiro conceito, sem ser, em nenhum caso, condutor. Age por ação de presença e sempre em conjunto.

A disciplina política por sua vez é aquela que exige que cada homem aja individualmente, pois é uma disciplina confiada a sua consciência e não à vontade de um que manda e que dirige os outros.

O militar sai com sua tropa e chega ao objetivo com esta, todos, em conjunto, obedecendo à voz de comando.

O político está livre nos seus próprios pensamentos e em suas próprias reflexões. Ele tem um ponto de partida comum e um objetivo a onde deve chegar. Elege o seu caminho. Marcha por distintos caminhos desenvolvendo, de diversas maneiras, sua mais completa e livre iniciativa.  É totalmente livre no rumo que escolheu. Marcha apenas com uma condição: não perturbar os que marcham com ele e chegar simultaneamente ao objetivo que fixou por sua própria vontade no exato momento em que é preciso chegar.

O que a disciplina política  não permite é o engano, é o mau procedimento. O que a disciplina política impõe é a sinceridade e a lealdade em todos os procedimentos e por sobre todas as coisas. Na disciplina política não existe nada de obrigatório que não esteja conforme a consciência ou que não seja ditado por esta. Em consequência i militante que realiza um mau ato não somente corrompe a disciplina da organização de que faz parte  mas também desgasta sua imagem, sua credibilidade pessoal, além de vulnerabilizar e comprometer a ação e a performance do conjunto. O mau procedimento, em síntese, inviabiliza o militante para a condição de dirigente (político) da organização.

Companheiros: quem realiza transações ou manobras em benefício próprio não pode impor nem exigir disciplina de quem deve obedecê-lo. Por esta razão a disciplina política é uma disciplina eminentemente de fundo interior. O dirigente político é substantivamente íntegro e livre. Por esta mesma razão, não há quem possa fazer o dirigente político. Ele nasce de sua própria bagagem interior. Ou seja, os quadros dirigentes não são feitos, nascem potencialmente para tanto. Engana-se aquele que acredita  que se pode fazer um dirigente político por decreto, resolução ou eleição. Isto é simples de explicar: conduzir é uma arte, o artista nasce  não se faz. Assim como o artista o dirigente político precisa apenas se desenvolver e aprimorar sua potencialidade e talento em grau máximo, a não ser que procure ocupar na história  um espaço comum de mediocridade.

Uma disciplina desta natureza, como muitas outras coisas essencialmente importantes, está em todas as bocas e em muitos poucos corações. Mande com dignidade, mande com sinceridade, mande com desinteresse pessoal, com lealdade, mande com honradez e será obedecido.

Publicado originalmente no Mensário “Ação Nacional” – São Paulo: Junho de 86, p. 9.

* O Centro de Estudos Gustavo Barroso é dirigido pelo renomado Jornalista Rômulo Augusto Romero Fontes,  editor do combativo “Jornal Bastidores”.

domingo, julho 12, 2009

LIBERDADE, CAMINHO DA ESCRAVIDÃO

Plínio Salgado

Todos os sofrimentos do mundo moderno se originam de um só defeito da grande máquina: a falta de disciplina.

O conceito da liberdade excessiva, o predomínio do individualismo mais desenfreado determinou o desequilíbrio social que perturba o ritmo da vida do nosso século.

Desde a Revolução Francesa, outro não tem sido o grito da humanidade, senão aquele que atroou todos os recantos do mundo e do século:
- Liberdade! Liberdade!

E foi a liberdade que espalhou pelas nações as doutrinas mais contraditórias, as afirmativas mais absurdas, os brados mais lancinantes de angústia do pensamento e do coração.

Σ

Liberdade! Clamava o homem e, clamando, tratava de conquistar os meios com que pudesse exercer, com forte base econômica, a faculdade de ser livre.

Foi assim que se formaram os primeiros capitais da avareza.

Liberdade! Clamavam os banqueiros, e foi assim clamando que dominaram as Nações, escravizaram as indústrias e o comércio, humilharam os produtores.

Liberdade! Clamavam os industriais e comerciantes e, entregues às leis da concorrência, livraram-se da disciplina do Estado, mas caíram no cativeiro dos agiotas.

Liberdade! Clamavam os patrões, e, em nome da liberdade de contrato, passaram a explorar os pobres, e o trabalho humano transformou-se em mercadoria sujeita às leis da oferta e procura.

Liberdade! Clamavam, por sua vez os proletários, os quais, assistindo ao espetáculo de luxo e paganismo de seus chefes, endureceram o coração e lançaram-se nas tremendas lutas de classe, feitas de ódio e de revolta.

Liberdade! Clamavam os pais, os esposos, os filhos, e ruiu a estrutura dos velhos lares felizes e tranquilos.

Liberdade! Clamava a imprensa, e na livre concorrência comercializou-se ao gosto depravado das turbas, que precisou agradar, e dos argentários, aos quais precisou vender-se.

E, em nome da liberdade, o gênero humano caminha para a ruína total, destruindo o ritmo de sua existência com a morte da disciplina.

Σ

A indisciplina destrona a modéstia e erige em ídolo a vaidade e o orgulho; transforma o amor em puro instinto sexual; reduz a amizade a uma questão de oportunidade; considera a honra como um ponto de vista; examina os costumes como relatividade de conveniências; semeia ódio sobre a terra; cria uma civilização de rebelados.

Já o homem não sabe defender-se dos vícios. Libertando-se da disciplina do espírito, cai na escravidão dos instintos.

O homem, agora, é livre. Livre de todos os preconceitos. Não tem sentimento nem religioso nem cívico. A Pátria, que é a Pátria, depois que lhe deram a significação meramente política de “vontade geral”? A Pátria é uma convenção.

Assim julga a mentalidade capitalista. Assim também a imagina a classe operária.

É que a Pátria, ela mesma, é uma expressão de disciplina. E, tendo desaparecido a disciplina, desaparece a Pátria.

Σ

Desta forma a humanidade marcha até a Grande Guerra. Culmina no seu grande delírio e desce, agora, a encosta dolorosa da desilusão, da tristeza surda, da insatisfação.

Essa insatisfação não se aplacará em qualquer regime, seja ele qual for.

O próprio comunismo é uma ilusão. Pois devendo impor uma atroz disciplina, virá contrariar o individualismo, que atualmente busca nele o derivativo máximo.

Liberdade! Liberdade! Nunca o gênero humano foi mais infeliz! Nunca foi tão prisioneiro...

Nem mais escravo.

Σ

E a Liberdade é o supremo dom do homem. É a dignidade da nossa Espécie. É a alegria dos nossos movimentos. É nossa honra e nossa glória, nossa aspiração superior.

Quem a degradou assim? Quem a tornou uma enfermidade e um opróbrio?

O Liberalismo.

Como salvaremos a Liberdade?

Pela disciplina.

Salgado, Plínio. O Soffrimento Universal. 3ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1936. Transcrito das páginas 185 até 190.