quarta-feira, setembro 08, 2010

O Integralismo foi o introdutor do anti-semitismo no Brasil?

Sérgio de Vasconcellos*

Em artigo anterior, “Gustavo Barroso, racista?”, provei de forma definitiva que Gustavo Barroso jamais foi racista.

Vou dar prosseguimento às investigações históricas, abordando outra arraigada fantasia dos “historiadores” que se dizem especialistas no Movimento  Integralista: O Integralismo seria o introdutor do anti-semitismo no Brasil. Ora, não teria existido anti-semitismo em nossa Pátria antes de 1932? É o que vou responder a seguir.

O primeiro Livro Integralista que abordou o anti-semitismo foi o célebre “Brasil, Colônia de Banqueiros”, de autoria de Gustavo Barroso(1) que, como demonstramos no Artigo citado, não é uma Obra de cunho racista, muito pelo contrário, pois, por mais surpreendente que isso possa parecer hoje, o anti-semitismo adotado por Barroso era uma posição anti-racista, porque pretendia impugnar o que ele entendia ser o racismo judaico. Este importantíssimo Livro, que denuncia a exploração do Brasil pelo Banqueirismo Internacional, foi publicado pela primeira vez em 1934, tendo se tornado um sucesso editorial, atingindo oito edições sucessivas até 1937. Antes de ser publicado, ele constituíra o conteúdo de uma Conferência, pronunciada pela primeira vez em Outubro de 1933 e repetida diversas vezes até Janeiro de 1934(2). Portanto, o próprio Integralismo já tinha um ano de idade quando Barroso divulgou seu candente libelo.

Ora, em Fevereiro de 1934, Affonso Arinos de Mello Franco, publicou o hoje raríssimo “Preparação ao Nacionalismo”(3), obra completamente anti-semita. Terá Mello Franco sofrido alguma influência de Barroso? A comparação entre os dois Livros deixa claro que, enquanto Barroso limita-se a questão dos Empréstimos Externos, sem nenhum caráter racista, o de Affonso Arinos é um trabalho racista, anti-judaico do início ao fim. De mais a mais, como o próprio Mello Franco admite, sua Obra ou a maior parte dela já estava pronta em Junho de 1933(4), ou seja, vários meses antes de Barroso preparar a sua Conferência. Assim, existe uma Obra claramente racista e anti-judaica anterior a de Barroso.


Todavia, em 1933, foi publicado o “Israel sem Máscara”, de Witold Kowerski(5). Não há informação exata em que momento do ano foi editado o volume, mas, o próprio Autor data o prefácio de Maio de 1933(6), e, por referência interna, ainda escrevia o livro em Setembro de 1933(7). Evidentemente, nenhuma influência de Barroso, cujo trabalho é de Outubro, e o cotejo com o de Affonso Arinos mostra uma outra abordagem, não obstante o seu nítido caráter racista e anti-judaico. Agora, são duas as Obras anti-semitas anteriores a Barroso.


Ainda no ano de 1933, foi traduzido para o português o famoso “O Judeu Internacional”, atribuído a Henry Ford, e publicado pela Globo, de Porto Alegre(8). Também aqui não é possível precisar o momento exato da impressão, porém, em Maio de 1933, o já citado Witold Kowerski dá a Obra como publicada(9), logo, só pode ser no período entre Janeiro e Maio de 1933. Terceiro volume anti-judaico antes de Barroso.

Também em 1933 publica-se uma tradução dos controvertidos “Protocolos dos Sábios do Sião”(10) – esta tradução não deve ser confundida com a de Gustavo Barroso, que é de 1936(11) - , que segundo o renomado jurista Anor Butler Maciel, em seu Livro “Nacionalismo – O Problema Judaico e o Nacional Socialismo”(12), foi lançada antes de “O Judeu Internacional”. Agora, já são quatro, todos anteriores a Barroso...

Em 1931, a consagrada Livraria do Globo, de Porto Alegre, publica um clássico, “As Forças Secretas da Revolução – Maçonaria e Judaísmo”, do erudito Conde Léon de Poncins(13). Friso o ano, 1931, portanto, antes mesmo da Fundação do Integralismo, em Outubro de 1932. E até aqui já são cinco livros não Integralistas e todos anteriores a Barroso.


No mesmo ano de 1931, o Padre Theophilo Dutra publica “As Seitas Secretas”(14), notável estudo sobre a maçonaria, com dois capítulos inteiramente dedicados aos judeus e a cabala, onde a inspiração judaica na maçonaria é destacada. É a Sexta Obra anterior a de Barroso.
 
Cada uma das Obras citadas aborda o judaísmo numa perspectiva diferente da de Gustavo Barroso e todas com antecedência cronológica. Constata-se assim, documentalmente, que não cabem a Gustavo Barroso e ao Integralismo, a primazia neste gênero de estudos. E assinalo que só levantei alguns poucos títulos, e nem fui pesquisar o que se dizia a respeito na Imprensa. Quem sabe algum “pesquisador” resolva fazer juz ao seu título acadêmico e pesquise o anti-judaísmo no jornalismo daquele período... Saliento que, o primeiro Periódico Integralista passa a circular em Dezembro de 1933, porém, trata-se do “Monitor Integralista”, órgão oficial de restrita circulação interna. A Imprensa Integralista só surge de fato em 1934, com “A Offensiva”, o primeiro periódico do que seria uma vasta cadeia jornalística, cobrindo todo o Território Nacional. Consequentemente, o Jornalismo do Sigma, não teve qualquer participação no surgimento do anti-judaismo em nosso País.
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Mas, forçoso é reconhecer que não é possível que, do nada, Editoras diversas, em pontos diferentes do País, resolvessem publicar títulos anti-judaicos. Sendo uma indústria, que visa lucro, tais Editoras apenas atenderam uma demanda insatisfeita. Explico-me: Até então, o francês era a Segunda língua das classes cultas do nosso País, e em tal idioma, existia – e ainda existe – uma vastíssima literatura anti-judaica (até o incorreto termo anti-semitismo é da criação de um francês, o Conde de Gobineau), e que circulava abundantemente no Brasil. No entanto, em nossa Língua Pátria, pouco se explorara o tema: Uma Palestra de Eduardo Jacobina, em 1917, e artigos do Conde Carlos de Laet, Dom Silvério Gomes Pimenta e outros durante a mal denominada “Questão Religiosa”(sessenta anos antes do surgimento do Integralismo!). A indústria editorial, portanto, tão somente atendia a procura por títulos neste assunto, ou seja, já existia uma parcela da Opinião Pública interessada, ou melhor, em outros termos, um Mercado Consumidor para este gênero literário, Mercado este que se formou ao longo dos anos, quando o Integralismo ainda não existia. Não se deve olvidar que tal Mercado ou Corrente de Opinião anti-judaica foi incrementada, principalmente nos Estados do Sul, com a presença, desde a década de 20, do Partido Nazista, que fazia ampla campanha de proselitismo. O racismo era parte da ideologia hitlerista, particularmente, o combate irracional aos judeus. Ainda em 1933, o renomado economista alemão, Gottfried Feder, um dos líderes do nazismo, teve seu livro, “As Bases do Nacional Socialismo” traduzido e publicado(15). Eis uma sétima Obra anterior a de Barroso.
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Assim, chega-se a conclusão de que o Integralismo não é criador do anti-judaismo entre nós, e mais ainda, paradoxalmente, Gustavo Barroso representa uma reação à literatura anti-semita que circulava no Brasil, que era francamente racista, enquanto Barroso deixava claro que sua crítica era de cunho anti-racista, denunciando um suposto racismo judaico, como vimos em Artigo anterior. Ou seja, ao reduzir os termos em que colocava o problema, condenando o racismo e recusando-se a criticar a Religião judaica, limitando-se a criticar a atuação política e econômica da Colônia Judaica – crítica que só poderia atingir a pequena parcela dos Grandes Capitalistas de tal Comunidade -, o nosso Gustavo Barroso estava fazendo uma sutil e brilhante defesa dos Judeus Brasileiros. É espantoso, mas, pode-se dizer que Barroso, apesar de parecer nos seus Livros um panfletário anti-semita, era, na verdade, um defensor do Judaísmo Brasileiro, e mais ainda, graças a mudança de paradigma na abordagem da então chamada “Questão Judaica” – da crítica racista aos judeus para a crítica à atuação política e econômica de alguns judeus – e ao prestígio do seu nome e a força do Integralismo, Gustavo Barroso impediu que se formasse entre nós um racismo anti-judaico, inteiramente alheio à Tradição Brasileira, e que estava surgindo no Brasil por influência de uma Literatura Estrangeira, a Literatura Anti-Judaica Européia(16).

Finalizando, entendo que Gustavo Barroso tem sido uma das figuras mais injustiçadas na História Contemporânea do Brasil, pois, é apontado como uma racista anti-semita, quando, de fato, foi um defensor dos Judeus, um campeão na luta contra o racismo. De acordo com a conclusão desta investigação, simples, porém, totalmente alicerçada em fatos e documentos, a Colônia Judaica do Brasil deveria erguer um Monumento a Gustavo Barroso, pois, graças a ele e ao Integralismo, o anti-semitismo racista não se enraizou entre nós. Fica aí a sugestão.

Respondo a pergunta que encima este trabalho: NÃO, o Integralismo não é introdutor do anti-semistismo em nosso País. Na verdade, o Integralismo é o responsável por não existir um racismo anti-semita no Brasil.

Anauê!

NOTAS:
1 BARROSO, Gustavo. Brasil – Colônia de Banqueiros. [1. ed.]. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1934.
2 Barroso, p. 135.
3 FRANCO, Affonso Arinos de Mello. Preparação ao Nacionalismo. (Carta aos que têm vinte anos). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1934. No colofão consta a informação: “Terminada a impressão deste livro em 20 de Fevereiro de 1934, (...)”.
4 Franco, p. 199.
5 KOWERSKI, Witold de Bialynia. Israel sem Máscara. Arios, cerrae fileiras! Rio de Janeiro: Calvino Filho, 1933.
6 Kowerski, p. X.
7 Kowerski, p. 11.
8 FORD, Henry. O Judeu Internacional. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1933.
9 Kowerski, p. IX.
10 Os Protocollos dos sabios do Sião. O Dominio do Mundo pelos Judeus. [1. ed.]. [s.l.]. [s.ed.].[s.d.]. Norman Cohn, dá um tal T. Moreira como o tradutor desta edição, e o Rio de Janeiro como local de publicação. Conf. COHN, Norman. A Conspiração Mundial do Judeus: Mito ou Realidade? Análise dos Protocolos e Outros Documentos. São Paulo: Ibrasa, 1969; p. 302.
11 Os Protocollos dos sabios de Sião. [1. ed.]. São Paulo: Agência Minerva, 1936.
12 MACIEL, Anor Butler. Nacionalismo. O Problema Judaico no Mundo e no Brasil. O Nacional Socialismo. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1937; p. 20.
13 PONCINS, Léon de. As forças secretas da Revolução – Maçonaria – Judaismo. [1. ed.]. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1931.
14 DUTRA, Pe. Theophilo. As Seitas Secretas. Estudo philosophico, historico, theologico e sociologico. Juiz de Fora: Typ. do Lar Catholico, 1931.
15 FEDER, Gottfried. As Bases do Nacional Socialismo. Rio de Janeiro: Star, [s.d.].
16 Eis alguns: A Tous les Franc-Maçoms du Monde Lumière et Verité, do Abbé Level(1875); La France Juive, de Édouard Drumont(1886); L’Entrée des Israélites dans la Société Française et les États Chrétiens d’Après dez Documents Nouveaux, do Abbé Joseph Lémann(1886); La France Juive devant l’Opinion, de Édouard Drumont(1886); Masques & Visages Maçoniques, de Jean Bidegain (1906); Le Drame Maçonnique – La Conjuration Juive Contre le Monde Chrétien, de Copin-Albancelli(1909); Le Péril Juif – Les Victoires d’Israel, de Roger Lamelin(1928); La Dictature des Puissances Occultes, de Léon de Poncins(1934); Dictature de la Maçonnerie, de Robert Vallery-Radot(1935); S.D.N. Super-État Maçonnique, de Léon de Poncins(1936); e isto para mencionar uns poucos títulos como exemplo, e apenas em Língua Francesa, pois, também circulavam no Brasil os de língua inglesa, espanhola, italiana, alemã, e até de Portugal, como o A Invasão dos Judeus, de Mário Sáa. Era contra a influência perniciosa desta literatura racista que se batia o Integralismo, particularmente, o ínclito Gustavo Barroso nas suas tão mal compreendidas Obras.
Pequena amostra da literatura anti-semita francesa que circulava no Brasil entre 1850 e 1940.

* Σ – Comerciante. Rio de Janeiro (RJ).

4 comentários:

Anônimo disse...

Mais uma vez o emérito Historiador e um dos líderes mais importantes que o Movimento Integralista surgido nos últimos 20 anos o Prof Dr Sérgio, secretário de Doutrina da FIB-RJ vem ilustrar de forma clara os aspéctos da perseguição contra o judaismo no sec XX, desmascara assim a tese que o Movimento Integralista divulgou propaganda contra o movimento judaico. Gustavo Barroso é e sempre SERA UM DOS MAIORES PENSADORES E LIDERES POLITICOS que o Brasil produziu! ao lado de Reale e Plinio.
Um forte abraço ao Dr Sérgio pelo brilhante estudo! Anauê Att do amigo Ricardo Lanes

Cleiton disse...

Txto muito bom, bem documentado. Um belo trabalho. Pelo Bem do Brasil, Cleiton Oliveira.

Pedro Cerqueira disse...

Como consigo esses livros ?

Sérgio de Vasconcellos disse...

Prezado Pedro.
Procurando nos Sebos com perseverança e sorte!
Anauê!