domingo, outubro 19, 2008

O ETERNO E O EFÊMERO

Nota Explicativa:
O Texto a seguir é de Autoria de Genésio Pereira Filho, quando era Secretário Estadual de Estudos e Plano Governamentais do Diretório Estadual de São Paulo do Partido de Representação Popular (PRP). Escrito especialmente para a Revista Integralista “Avante!” (que se editava em Ribeirão Preto), alcançou enorme sucesso tendo sido republicado em diversos jornais e revistas, bem como editado várias vezes na forma de Folheto, também foi acolhido no Volume VIII da Enciclopédia do Integralismo. Mais recentemente tem sido difundido pela Internet, porém, constatamos que suas reproduções virtuais contém erros e, por isso, resolvemos reeditá-lo virtualmente, com tais erros devidamente expurgados. Todos os Integralistas devem ler e reler este Artigo, meditando-o.

Ser Integralista - Não ser Integralista (O Eterno e o Efêmero).

Genésio Pereira Filho*
Ser Integralista não é fácil. O Integralista aceita uma série de compromissos que não se rompem com desembaraço. E, antes de mais nada, ser Integralista significa tomar atitude, conhecendo a verdade da vida e crendo nela.
Que é tomar atitude? É tomar posição diante das crenças exatas em um momento histórico e através da dialética, pelos movimentos incessantes do devir, procurar chegar ao conhecimento da Verdade final. Que é esta Verdade final, senão a autenticidade da própria vida e a presença do homem, puro de alma, diante do Belo e do Bem?
Domina todo raciocínio a idéia de Verdade. E esta idéia de Verdade como pode ser atingida? Através do pensamento. Logo, tomar atitude é pensar. Diante do mundo cheio de mistérios, de terrores, de incertezas, de ameaças, diante das almas angustiadas e dos corações desesperados, ante destinos rotos e esperanças desfeitas, que faz o homem? Pensa. Procura penetrar as profundezas sem fim da destinação humana, na tentativa de projetar-se além dos mistérios e do incognoscível. Aí está o binômio capaz de criar o homem integral, aquele que dignifica a existência: razão e crença. Não podendo vislumbrar a Verdade última pela fragilidade das ciências, que se esboroam ante o mistério insondável do infinito, o homem sente necessidade de crer. E crendo, plasma uma realidade para tudo, para as coisas que o cercam e para os universos que adivinha, afirma-se na realidade do próprio mundo e caminha fortalecido pela pujança de sua presença animada de ideais.
Não é possível, portanto, crer sem colocar na crença toda força da alma e toda identificação. O ideal que domina o homem tem que ser aceito integralmente, sem reservas, completamente, perfeita e absolutamente. A raiz da verdade é profunda, e não admite superfícies. Vai ao âmago dos corações, enreda-se pelos escaninhos, domina, subjuga, absorve, consome, infiltra-se, penetra, impera, prevalece e prepondera. Não aceita limites. O ideal é ou deixa de ser si tomado em meio termo. Quem crê fá-lo radicalmente, ou não crê. Quem busca verdades parciais numa crença não conhece o pensamento exato, puro e último.
Quem crê revela uma essência. A essência designa e caracteriza o SER, aquilo que é, porque independe das relatividades existenciais. O SER não precisa estar em outro objeto para ser. É em si mesmo, sempre e necessariamente sujeito.
Não sendo nem atributo, nem acidente, nem substância, a essência marca o SER em sua permanência, enquanto tudo à sua volta possa mudar.
Uma essência, irrealizada em uma época, inaceitada, não perde nunca sua força de permanência, porque é eternamente viável. Por isso, costumo dizer que dois verbos diferenciam o Integralista dos demais políticos. Fiel a uma doutrina, que é essencial porque derivada de uma atitude tomada e pensada, não têm caracteres transitórios os gestos do Integralista.
SER e ESTAR são verbos. O Integralista é, afirma-se perenemente através de um movimento de idéias que a relatividade das existências jamais destruirá. Somos um movimento, não estamos num movimento. Afirmamos para a eternidade. O eterno supera o tempo, opõe-se mesmo ao tempo, cuja idéia constitui-lhe antinomia. O que é transitório tem começo e tem fim, vive no tempo e no espaço, submete-se ao devir, às contingências, à existência. Assim sendo, os que não são Integralistas estão simplesmente... Existem. Estão hoje na “União Democrática Nacional”, como estiveram ontem no “Partido Social Democrático” e estarão amanhã no “Partido Trabalhista Nacional”. O Integralista, ao invés, afirma: “EGO SUM”. Sou porque afirmo. Afirmo porque creio. Creio porque penso.
Se me perguntarem se sou de São Paulo, responderei que não. Estou em São Paulo, como estive há tempos em Ribeirão Preto e outrora em Jaboticabal, em Mococa, em Silveiras. Mas sou de São Bento do Sapucaí, minha terra natal, cujas montanhas enchem-me a alma de ideais e de fé; os pinheirais da Mantiqueira são símbolos de minha nobreza e a vibração telúrica do meu ser tem raízes nas escarpas e nas grotas, nas encostas íngremes e nos abismos insondáveis... Estou transitoriamente no asfalto, existo em superfícies, em paisagens de simplórios gramados, mas sou das montanhas de selvas indômitas, habitadas por mistérios e recordadas pelas lendas.
O Integralista é marcado pela continuidade constante do ser, que se revela na vida de ação permanente.
O homem que crê, aceita e elege. Aceitando e elegendo princípios, integra-se. Integrando-se, torna-se responsável. Já disse Julián Marías que a responsabilidade não é consecutiva ao ato humano, mas constitutiva dele mesmo. Sendo constitutiva, está em sua própria natureza. Não pode o homem, pois, titubear em sua vida, mas deve marcá-la pela decisão, sem o que não estará dando “presença” de si mesmo no mundo. Vagará por ele, como sombra tênue, como corpo sem alma. De indecisos está cheio o mundo. De cadáveres que fantasmagoriam cenários e criam universos tenebrosos. De cansados está saturada a terra. De reotropismo negativo está dominada a humanidade.
A existência tem que ser marcada pela atividade constante, pelo trabalho dos audazes e dos decididos, daqueles que ferem o mundo com atitudes firmes e o agridem com sonhos insólitos. Desses é o futuro, porque eles é que fazem a Beleza da Vida e são eles que redimem o gênero humano. Nada de liberalismos tolerantes, nada de totalitarismos negadores da dignidade humana. Precisamos de afirmações corajosas dos ideais abraçados. Sonhar pela Arte e realizar pela Ação, eis a vida bem vivida e bem sentida. Vida que, sendo um eterno presente, não pode abandonar a tradição nem deixar de mirar o futuro. Nação que esquece o passado perde a própria memória. Nação que não vive o presente avilta-se na covardia. Nação que não olha o futuro envenena-se pelos atos limitados do egoísmo.
O homem Integral, o homem eterno, este se apóia na memória dos povos, em sua história, realiza o presente com denodo e constrói para o futuro. Assim agindo, afirma sua essência, lutando contra o tempo que nada perdoa. Disse o filósofo que tudo é destruído pelo tempo, a mulher, a flor, as construções, os impérios, as palavras – ai deles! – o Tempo fá-los inexoravelmente perecer. Nem mesmo os sonhos são perdoados. Nem as obras de Arte. Há, contudo, algo que resiste: o Ideal. Com as obras de arte perece o Belo. Com o Ideal resiste o Sublime, que supera o Tempo.
Afirmemos, portanto, Integralistas, com bastante coragem, nosso Ideal. Afirmemos, porque ele resiste ao Tempo e existirá para sempre. Irrealizado hoje, se incapaz nossa geração de aceitá-lo, será possível no amanhã. “Ego Sum”. Somos um movimento para a Eternidade. E quem afirma para a Eternidade, caminha para o Bem Supremo, alvo último de nosso destino: DEUS.
(Transcrito da Revista “Avante!” – Ano 1 – Fevereiro-Abril de 1950 – Nº 2 – pág. 50).

* Σ – São Paulo (SP). Jurista.

sábado, outubro 18, 2008

Ascendino Leite critica a guerra de silêncio infligida a Plínio Salgado.

O renomado escritor Ascendino Leite, no seu afamado “As Coisas Feitas”, insuspeitamente, pois nunca foi Integralista, protesta contra o silêncio criminoso em relação a Plínio Salgado e sua Obra, eis o que ele diz:
“Plínio foi (é) um exemplo ilustrativo do que afirmo. Sua obra literária, propriamente dita, que abrange romances como O Esperado e O Estrangeiro, está a sofrer o obscurecimento planejado de historiadores e críticos engajados em campo oposto ao do inspirador do Integralismo, no sentido de destruir qualquer lembrança do valor dessa mesma obra.
“(...).
“Não me canso de ler essa Vida de Jesus, de Plínio Salgado, obra prima, duma grande, extraordinária perfeição. Sobre o tema, não há em português uma só que a supere sob qualquer aspecto em que se a aprecie. Linguagem, composição e estilo, tudo nela exprime o máximo das qualidades positivas dum escritor, dum poeta, dum mestre apaixonado pelo seu tema, sem exagero, sem heresia. Mais de vinte edições, uma dezena fora do nosso país, em outros idiomas.
“Mas entre nós quem fala nela? Silêncio completo. Até a Igreja Católica parece ignorá-la. Ninguém, nenhum crítico, nem mesmo Tristão de Ataíde, se abala a comentar a existência desse livro, não obstante a singular mensagem que nele se contém, - belíssimo monumento dedicado à propagação da divindade, da glória e da humanidade de Cristo. Livro tão importante quanto o de Renan. Bem mais perfeito e tocante que o de Mauriac.
“A censura política cegou o espírito crítico em nosso país e acabou transformando o seu autor num escritor maldito, e a sua considerável contribuição à nossa expressão literária, numa obra proibida”.
(Ascendino Leite – “As Coisas Feitas – Jornal Literário” – Rio de Janeiro – Eda Editora – 1980 – págs. 125 e 126).
Opinião de Cassiano Ricardo sobre Plínio Salgado.
Mário de Andrade, Cassiano Ricardo, Menotti Del Picchia, Alfredo Ellis Jr., Plínio Salgado, Oswald de Andrade, Raul Bopp, Cândido Mota Filho, Tasso da Silveira e tantos outros constituíram a brilhante geração intelectual do Modernismo Brasileiro.
Cassiano Ricardo e Plínio Salgado, que participaram do Verde Amarelismo e da Anta, foram amigos por toda a vida, apesar de politicamente terem divergido, pois, Plínio Salgado, em 1932, criou o Integralismo, essencialmente democrático e pluralista, enquanto Cassiano Ricardo, em 1936, fundou a Bandeira, um movimento de cunho fascista, que acabou cooptado pelo totalitário Estado Novo, de Getúlio Vargas, em 1937. No seu Livro de Memórias, Cassiano Ricardo, nos dá um “3 x 4” de Plínio Salgado:
“Caipira do Vale do Paraíba mas civilizado; pode-se incluir na família intelectual de Lobato e Euclides pelo feitio pessoal, teluricamente brasileiro. Inquieto, instantâneo para escrever; mas a um só tempo, capaz de graves reflexões sociológicas, artísticas, “poiéticas” que exigiam vagar. Vivo como corrupira no seu poder de invenção, era cinético no seu convívio. Capacidade de comando e de proselitismo. Mas esse já é outro capítulo que não cabe nos idos do grupo Verde-Amarelo ou do Correio Paulistano. Nem nessa ficha de identificação”.
(Cassiano Ricardo – “Viagem no Tempo e no Espaço” – Rio de Janeiro – Civilização Brasileira – 1970 – XVI + (1) + 330 págs.; transcrição da pág. 35, nota 1).

terça-feira, setembro 30, 2008

A Semana de Arte Moderna e o Pensamento de Plínio Salgado

A Semana de Arte Moderna e o Pensamento de Plínio Salgado.

Fabrícia Lopes*.
A Semana de Arte Moderna de 1922 pode ser considerada como marco do modernismo no Brasil. O evento aconteceu na capital paulista e reuniu intelectuais de distintas linhas ideológicas. Apesar das divergências, buscavam a mudança da velha mentalidade estética por outra, em valores e propósitos. Tal semana, na época em que ocorreu, não abalou estruturas e nem foi um movimento de massa. Sua repercussão só ganharia contornos nos anos sucessivos.
Dentre os desdobramentos da Semana, surge o Movimento Cultural Verde-Amarelo e Grupo Anta, fundado em 1926. O movimento contou com a presença do jornalista e escritor Plínio Salgado, que teve ao seu lado nomes como Cassiano Ricardo, Menotti del Picchia e Cândido Mota Filho. Eram os fomentadores do Manifesto do Verde-Amarelismo, que tem como base o nacionalismo tupi.
Anteriormente a sua participação na Semana de Arte Moderna, Plínio Salgado passou por um momento que mudaria o rumo de suas convicções filosóficas. Antes da morte de sua esposa, em 1919, o jornalista teve contato com doutrinas materialistas e revolucionárias de Sorel, Marx, Trotski e Feuerbach. Entretanto, com a perda da companheira, o escritor buscaria refugio no Cristianismo, que passará a influenciar sua produção literária.
Em 1922, sua presença na Semana de Arte Moderna foi crucial para a formação intelectual e política de seu pensamento, sendo ela responsável pelo amadurecimento de suas convicções ideológicas nacionalistas. Foi por meio de sua atuação no movimento modernista que Plínio Salgado confirmou seu sentimento patriótico, travando debates com outra vertente modernista, composta por Mário de Andrade. Em sua produção literária, o jornalista ressalta a importância de valores para a constituição de uma identidade brasileira.
O estilo modernista adotado por Plínio Salgado em suas obras literárias acabou sendo visto com preconceito, devido a sua atuação política ter sido associada ao nazi-facismo. Esta acusação normalmente partia dos intelectuais de esquerda, que se opunham à sua visão dualista, visto que se embasavam no materialismo e no relativismo cultural para produção de suas obras.
Observando a obra do autor, é possível notar seu respeito ao ser humano, e o culto a virtudes que são necessárias para uma plena convivência com o próximo, mostrando que para ser intelectual e romper com velhos paradigmas não é necessário negar valores que são imutáveis, como Deus, a família, e a Pátria. De fato, Salgado é um exemplo para os intelectuais da pós-modernidade, que para serem aceitos assumem posicionamentos ateístas e agnósticos, que não respondem aos seus anseios interiores.
* Estudante de Jornalismo (Quarto Semestre). Araçatuba, São Paulo.
# Escrito por Jornalismo UniToledo, às 09h33, dia 29/08/2008.
Os Integralistas e a Guerra Civil Espanhola.
Marcus Ferreira*
A Legião estrangeira Espanhola.
Em 1916, aos 22 anos, Francisco Franco era apenas um capitão, o mais jovem da Espanha. Havia um ano que fora transferido para o Marrocos, colônia espanhola, onde poderia ganhar mais e as promoções eram por bravura e não por algum serviço administrativo, como na metrópole. Lá enfrentavam a guerrilha local, que resistia a invasão. Franco, sempre na linha de frente, fora ferido e condenado à morte pelos médicos. Sua família foi chamada, e seus superiores cogitaram lhe promover postumamente a major pela bravura. Contrariando as expectativas sobreviveu e recuperou-se. Exigiu e recebeu a promoção. Os inimigos criaram a lenda que ele possuía “Baraka”, que seria uma força misteriosa, “o sopro da vida”, que o protegia.
Nos meses seguintes, o major Franco e seu amigo, o coronel Millan Astray, alistaram mais 550 legionários, e os instruíram para combater o chefe Abd-el-Krim. Finalmente em uma licença, cinco anos depois de afastado de sua noiva, casou-se com sua amada, tendo, para surpresa de seu sogro, a presença do general Losada, representando o rei da Espanha, Afonso XIII. Apesar das pesadas perdas, a Legião Estrangeira Espanhola lutou com bravura, tendo Franco sempre na primeira linha de combate. Ele e Millan Astray impuseram um código com oito itens aos legionários:
I – O espírito legionário: o único e substancial dever é a agressividade cega e feroz: encurtar sempre à distância para o inimigo, para atacá-lo com a baioneta.
II – O espírito de camaradagem: "jurais que não abandonareis jamais um legionário no campo de luta, mesmo com o risco de morrerem todos".
III – O espírito de união e socorro: ao chamado – A mi la legion! – todos correrão para prestar ajuda ao legionário, que, com ou sem motivo, se encontra em perigo.
IV – O espírito de marcha: um legionário jamais dirá que está cansado; antes preferirá cair morto.
V – O espírito de dor e de resistência: o legionário não se queixará de cansaço, nem de dor, nem de fome, nem de sede, nem de sono.
VI – O espírito de disciplina: o legionário cumprirá o seu dever até a morte.
VII – O espírito de combate: a legião pedirá sempre para combater sem tréguas, sem contar os dias, nem os meses, nem os anos.
VIII – O espírito de morte: morrer em combate é a maior das honras. A morte liberta de todas as dores e não é terrível, como parece. Mais terrível é viver como covarde. A bandeira da legião será a mais gloriosa, porque é manchada com o sangue de legionário.
A Bandeira da Legião – É a mais gloriosa por que está tingida com o sangue dos legionários.
Todos os homens legionários são bravos, cada nação tem fama de bravura, aqui deve demonstrar que pode ser mais valente.
De fato, lutar sob o comando de Franco não era fácil. Diz-se que era inflexível, duro, minucioso e exigente. Não fazia muitas amizades, mas jamais exigia sacrifícios de sua tropa que não estivesse disposto a exigir de si próprio. Suas tropas eram experientes, disciplinadas e vorazes - como seu líder. Este homem e seus soldados se levantariam contra a Frente Popular que ganhou as eleições legislativas na Espanha.
A internacionalização de uma Guerra Civil.
Quando a revolta nacionalista começou, Franco constatou que quase toda a Marinha e a Aeronáutica estavam do lado republicano, e, com seu exército fora do continente, seria impossível retomar a Espanha. Por isso procurou apoio estrangeiro. As duas maiores potências anticomunistas na época eram a Alemanha nazista, de Adolf Hitler, e a Itália fascista, de Benito Mussolini. Havia também Portugal, de Salazar, que se tornou seu amigo mais tarde. Franco não hesitou em pedir auxílio. A ajuda alemã chegou a partir de agosto de 1936, na forma de 50 aviões Junkers Ju-86. Estes, somados aos aviões de transporte italianos, serviram para o transporte dos primeiros soldados e material bélico. A “Legião Condor”, comandada por Ritter Von Thomas era formada por voluntários da Luftwaffe [a força aérea alemã]. Habilmente treinados e perfeitamente disciplinados, colocariam em prática as táticas que até então eram apenas teorias sobre a guerra aérea e o bombardeio terrestre.
Os italianos colaboraram com dezenas de milhares de soldados e milhões de liras para a compra de armas e suprimentos. Os italianos tiveram milhares de baixas no conflito. Portugal enviou a “Legião de Viriato”, composta por 20.000 voluntários, que sofreu também perdas consideráveis. A Legião Viriato foi formada pelo major Jorge Botelho Moniz, presidente do Rádio Clube Português e amigo de Oliveira Salazar. Este deixou simplesmente que a idéia da Legião prosseguisse, mas não se responsabilizou por ela. É de Oliveira Salazar a frase que descreve melhor este momento: "a internacionalização de uma guerra desenvolvendo-se no quadro de um território nacional".
Quando a guerra começou e se tornou conhecida ao mundo, começaram a chegar novos voluntários, que formaram a “Legião Joana d’Arc”. Cerca de 600 irlandeses, 10 ingleses e 100 franceses. Chegou também uma companhia de russos brancos, e sete membros da Guarda de Ferro romena. Da América do Sul chegaram grupos de argentinos e uruguaios, entre outros - há indícios da participação de brasileiros ao lado de Franco no conflito, mas minhas pesquisas ainda não provaram isto. Estes voluntários eram monarquistas, fascistas, nacionalistas, católicos ou até mesmo descendentes de espanhóis. Em comum só o anticomunismo.
A ação irlandesa e romena.
A motivação dos irlandeses foi basicamente o ódio aos comunistas. Eles ouviram que "os vermelhos estavam queimando igrejas e caçando padres e freiras". O grupo foi liderado por Eoin O'Duffy, líder dos "camisas azuis", movimento fascista irlandês. A viagem foi patrocinada por católicos e por jornais nacionalistas. Partiram de Dublin, em 13 de novembro de 1936. Formaram a 15ª bandeira da Legião Estrangeira Espanhola. Ao chegarem em Jarama, em 11 de Fevereiro de 1937, se envolveram em um combate ferrenho na linha de frente, enfrentando as Brigadas Internacionais. Ambos os lados tiveram enormes baixas. A unidade foi retirada de combate, para praticamente não mais lutar. O’Duff retornou a Espanha em 1938, publicando o livro Crusade in Spain, onde se vangloria da luta anticomunista. Faleceu em 1944, sendo enterrado com honras militares.
A Guarda de Ferro romena, também conhecida como Movimento Legionário, enviou um grupo meramente simbólico para o conflito. Eram todos líderes do movimento, que participaram de sua fundação e organização. Muitos outros se propuseram a partir, mas o movimento não tinha recursos para a viagem. Partiram em 24 de novembro de 1936, e a tropa era liderada por Ion Mota, cunhado do líder da legião Corneliu Codreanu - além dele, foram o padre ortodoxo Dumitrescu Borsa e outros cinco voluntários. Chegando à Espanha, foram incorporados à 21ª companhia da Legião Estrangeira Espanhola, sob o comando do coronel Yague. Em 13 de janeiro de 1937, defenderam a cidade de Majadahonda de um ataque republicano. Tiveram dois mortos, um ferido e um doente, e vitoriosos, se retiraram dos combates voltando para seu país. Os romenos da Guarda de Ferro, após breve período em que administraram o país ao lado do ditador Ion Antonescu, deste divergiram e foram internados pelos alemães no campo de concentração de Buchenwald. Depois foram liberados pelos alemães para se defenderem da invasão russa, em 1945, quando já era tarde demais. Após a guerra muitos fugiram do país, inclusive para o Brasil. Os que foram para a Espanha, fizeram um grande monumento em memória de seus mortos, Ion Mota e Vasile Marin, na cidade onde tombaram.
O Brasil na rota nacionalista.
Alguns grupos de voluntários da América do Sul passaram pelo Rio de Janeiro, em 1936, em direção à Espanha. No Brasil existia a Ação Integralista Brasileira, partido nacionalista fundado em 7 de outubro de 1932, liderado por Plínio Salgado, seu “Chefe Nacional”. A AIB tinha afinidades ideológicas com a falange de Primo de Rivera, e apoiava a ação anticomunista de Franco.
Na Cidade do Rio de Janeiro, então Capital Federal, estava o jornal A Offensiva, seu principal órgão noticioso. A sede do jornal recebeu dois destes grupos voluntários. O primeiro grupo, chegou em 9 de setembro de 1936, e era formado por 10 espanhóis e 3 uruguaios. O grupo era procedente de Buenos Aires e Montevidéu. Chegou no paquete alemão General San Martin. Os uruguaios, Antonio Arribas, Benito Arribas e Bernardo Corrosso eram aviadores. Os argentinos, Carlos Castro, Amélio Fernandez, Manoel Mendez, Juan Arregri, Antonio Dapena, Ramon Ramoni, Benito Átrio, Laureano Casero e Rufo Arguñarena eram milicianos.
Rumo a Espanha, Voluntários Nacionalistas confraternizam com Integralistas, no Rio de Janeiro.
Em 1º de setembro de 1937 chegou outro grupo, no vapor General Artigas. Eram liderados pelo Chefe Nicolas Guintane e pelo sub-Chefe Enrique Rodrigues. Estavam com eles Sebastian Cereceda e Emílio Rosado. Foram recebidos pelo segundo no comando na AIB, Gustavo Barroso, e pelo diretor do jornal, Madeira de Freitas. Este, empolgado com aqueles homens, escreveu no editorial do dia 4 de setembro:
Vi-os, quando, atraídos pela força do ideal comum, procuraram a redação de A Offensiva. Saudei-os, como integralista, em nome e por ordem do Chefe Nacional. E vendo-os, adivinhei quanto de grave, de sublime e de transcendente lhes iluminava o olhar, onde um brilho estranho falaria bem mais alto do que as suas palavras de retribuição “al saludo de los hermanos del Brasil”.
(...) Integralistas e camisas-azuis, compreenderam-se. E marcham, com os patriotas do mundo inteiro, para a apoteose da grande epopéia, para o raiar de uma nova aurora, ao ritmo novo de um novo conceito de vida, o conceito da própria dignidade humana.
Finalmente, em 13 de Janeiro de 1937, chegou ao Rio de Janeiro, de Sevilla e indo para Buenos Aires, Raul Iglesias, agente da falange espanhola. Este estava em Barcelona no início das hostilidades, e se alistou no Exército de Moscardo. Recuou com estes para Alcazar, e lá ficou cercado durante meses. Levantado o cerco, participou do ataque bem sucedido a Irun. Lá, se tornou emissário da Falange e foi enviado para a Argentina. Na ocasião disse: “Pode publicar em seu jornal que a Espanha não é comunista e que os espanhóis nacionalistas estão certos da vitória pela confiança que tem no general Franco e pela fé que tem em Deus”.
Finalmente, em 13 de janeiro de 1937, chegou ao Rio de Janeiro, de Sevilla, e indo para Buenos Aires, Raul Iglesias, agente da falange espanhola. Este estava em Barcelona no início das hostilidades, e se alistou no Exército de Moscardo. Recuou com estes para Alcazar, e lá ficou cercado durante meses. Levantado o cerco, participou do ataque bem sucedido a Irun. Lá, se tornou emissário da Falange e foi enviado para a Argentina. Na ocasião, disse: “Pode publicar em seu jornal que a Espanha não é comunista e que os espanhóis nacionalistas estão certos da vitória pela confiança que tem no general Franco e pela fé que tem em Deus”.
A guerra se torna mundial.
Terminada a Guerra Civil, marcada pela extrema violência de ambos os lados em conflito, Franco começou a lenta reestruturação do país. Logo começou a 2ª Guerra Mundial, e lhe foi cobrada uma posição no conflito. O encontro com Hitler foi em 13 de Novembro de 1940, em Hendaye, na França. O encontro com Mussolini foi em 7 de Março de 1941, em Bordighera, na Itália. Franco optou pela neutralidade enviando para a Alemanha apenas uma divisão de infantaria, conhecida como “Divisão Azul”, a de número 250 da Wehrmacht, comandada pelo General-major Muñoz Grandes. Esta divisão era composta por voluntários espanhóis, na maior parte falangistas, e por cerca de 15 portugueses, ex-membros da Legião Viriato. Engajou-se na luta no setor de Leningrado, na Rússia, até ser retirada de combate, com cerca de seis mil baixas.
Dos portugueses desta divisão, somente um retornou vivo. A maior parte morreu no frio de 35º abaixo de zero das estepes russas. Chamava-se João Rodrigues Júnior. Este, em 1936, depois de ter cumprido o serviço militar, partiu para Espanha, onde havia começado a guerra Civil, e se alistara na Legião Estrangeira Espanhola. Em 1941, terminaria seu contrato de cinco anos com a Legião, mas decidiu por renová-lo para lutar contra o comunismo. Em 1942, aos 26 anos, retornou para sua casa, ainda um idealista.
Fontes:
Revista A Esfera. Portugal, 1942.
Jornal A Offensiva. Rio de Janeiro, 1936-1938.
Carap, Julia. Delírios e destinos. Niterói, RJ: Muiraquitã. 1997.
Legiunea In Imagini. Madrid: Editura Miscárii Legionari, 1977.
Revista “Anauê!”. Rio de Janeiro, 1935-1937.
* Historiador. Rio de Janeiro.

quinta-feira, agosto 28, 2008

O Integralismo e a Revolução Comunista de 1935

O Integralismo e a Revolução Comunista de 1935
Sérgio de Vasconcellos
Ao Companheiro Valmir Soares Jr.
Nos dias finais de Novembro de 1935, vivendo o Brasil em plena Democracia, sob a égide da Constituição social-democrática de 1934, alguns Brasileiros, civis e militares, magnetizados pelo marxismo-leninismo – uma ideologia estrangeira, internacionalista, imperialista, materialista, totalitária e anti-democrática -, desfecharam um golpe revolucionário visando destruir as liberdades públicas e instaurar um Estado Totalitário. Tal revolução, mais conhecida pelo antipático nome de “Intentona Comunista”, custou a vida de dezenas de Brasileiros – muitos dos quais Integralistas -, e que teve sua nada heróica culminância no episódio tristemente célebre do 3º RI, na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, quando militares comunistas assassinaram covardemente colegas de farda ainda dormindo.
Apesar de toda a articulação - secreta e de procedência internacional -, a insurreição bolchevista estourou apenas nas cidades de Natal, Recife e Rio de Janeiro, malogrando inteiramente. Ora, qual a principal razão do fracasso comunista?A ação fora minuciosamente concebida e a certeza de seu sucesso era tão grande, que Stálin enviou ao nosso País três comunistas de sua inteira confiança – que seriam os verdadeiros governantes do Brasil, agindo por trás de Luís Carlos Prestes, o líder oficial – Harry Berger, a esposa deste (Elise) e Olga Benário, que ao contrário da vulgata romântica, não se uniu a Prestes por “amor”, mas por ordem do Komintern...
Se formos ouvir os discursos nas Comemorações oficiais do esmagamento do levante e de Homenagem aos seus Mortos, teremos a impressão que foi a pronta reação das Forças Armadas que impossibilitou o sucesso comunista. Por mais que nos desagrade desmentir as Autoridades Nacionais, particularmente, as das nossas Forças Armadas, que desde a Guerra Holandesa só tem honrado o Brasil, infelizmente, somos obrigados a dizer em nome da Verdade que, a versão oficial é falsa e que as explicações que até aqui têm sido dadas pelos historiadores para a derrota comunista em 1935, salvo as honrosas exceções de praxe, são insuficientes e equivocadas.
Então, perguntar-me-ão, afinal, qual é a Verdade? Respondo:
A principal razão para o total fracasso da Revolução Comunista de Novembro de 1935 chama-se... INTEGRALISMO!
Se os Militares chamam para si a inteira responsabilidade da vitória da legalidade, se os historiadores, em sua maioria, desconhecem os acontecimentos, isto não altera a substancialidade do fato histórico. Os Integralistas, os únicos Brasileiros que pressentiam estar sendo algo tramado contra o Brasil pela 3ª Internacional, foram os primeiros a opor-se ao levante comunista, inclusive apresentando-se em instalações militares – quando a cadeia de comando e comunicação do Exército estava completamente rota -, o que impediu que diversas unidades militares fossem tomadas ou sublevadas pelos Vermelhos, como por exemplo, meu Tio, Geraldo de Paula Lopes, a frente de um Grupo de Integralistas no Quartel de Campinho, no Rio de Janeiro.
Todavia, a Heróica iniciativa dos Integralistas, que foi seguida pela ação de outros civis patriotas e finalmente pelas Forças Armadas, não teria talvez logrado o êxito obtido se muito antes de 1935, o Integralismo, não tivesses se lançado a tarefa de esclarecer o Povo Brasileiro e construir uma consciência cívico-política. Graças ao metódico trabalho da Acção Integralista Brasileira foi quase que por completa anulada a infiltração marxista nos Quartéis, o que privou a Revolução Comunista de elementos humanos preciosos, sem os quais a Revolução Vermelha já estava fadada ao fracasso.
Curiosamente, se Militares e Historiadores ignoram ou fingem ignorar a participação vital do Integralismo no debelamento da revolta marxista, os derrotados, isto é, os Comunistas, reconhecem-na lealmente, o que se comprova por uma Carta-Circular de 1936, em que Prestes explicava o insucesso e, entre outras coisas, dizia:
“Eu pensava agir de outro modo bem diferente” – refere-se à revolução comunista de 1935 – “como já tinha tido oportunidade de me manifestar aos camaradas mais chegados, PRINCIPALMENTE DEPOIS DO FENÔMENO INTEGRALISTA, que escapou por completo às minhas cogitações. Informei em sessão secreta do Comintern que, antes de tentar qualquer golpe no Brasil, era necessário:
“(...).
“3º) – EXTINGUIR OU PELO MENOS ENFRAQUECER O INTEGRALISMO”.
O próprio Dimitroff o reconheceu:
“Não foi possível vencermos no Brasil porque tivemos a leviandade de subestimar a força e a influência que o Integralismo representava”.
Então, Dimitroff expede novas instruções gerais, em 1936:
“1 – Exercitar as massas populares no movimento anti-nacionalista (fascismo, nazismo, “Croix du Feu”, INTEGRALISMO e outras organizações anti-comunistas); atrair para essa luta a pequena burguesia(classes liberais), reservando-lhes um lugar para as reivindicações que tiverem, na frente-popular democrática.
“(...)”.
Enfim, o malogro da Revolução Comunista acabou por originar a seguinte diretiva, também de Dimitroff, que é seguida maquinalmente até hoje pelos comunistas e pela burguesia apátrida:
Concentrant lê feu contre “les chefs” intégralistes et la politique hitlerienne du gouvernement, soulignant que ces “chefs” sont des agents des groupes les plus réactionnaires de l’impérialisme, il faut partout lutter pour lê front démocratique national-libérateur, surtout à la base y compris celle de l’Action Integraliste. Il faut mobiliser les masses pour qu’elles exigent des deux candidats (Armando Salles et José Américo) non des phrases vides pour la “démocratie”, mais une attitude nette devant les problèmes concrètes de la démocratization du pays, qui exige, pour commencer, la libération de Prestes e de sés compagnons, leur amnistie totale, l’établissement d’um regime de libertes démocratiques, etc”.
Traduzindo para o nosso idioma a parte que mais nos interessa desse precioso documento:
Concentrando o fogo contra “os chefes” integralistas (...), sublinhando que esses “chefes” pertencem aos grupos mais reacionários do imperialismo, lutar em toda a parte pela frente democrática nacional-libertadora, principalmente na base, incluindo a luta contra a Ação Integralista.(...)”.

Σ

Todas estas reflexões de caráter histórico são importantíssimas, quando sabemos que o marxismo – que muitos bisonhos acham que desapareceu com a sinistra União Soviética – está conspirando ativamente para instaurar no Brasil um Estado Totalitário, com o seu cortejo de horrores. Hoje, mais do que nunca, o Brasil necessita dos Integralistas, e que o exemplo dos Companheiros que nos antecederam na Revolução Integralista nos sirva de seguro farol de orientação na nossa luta por Deus, pela Pátria e pela Família.
BIBLIOGRAFIA:
1 – Custódio de Viveiros
“Os Inimigos do Sigma”
Rio de Janeiro – Livraria H. Antunes – 1936 – 200 págs.
2 – Plínio Salgado
“O Communismo contra o Brasil”
Rio de Janeiro – s/ed. – 1937 – 31 págs.
3 – Plínio Salgado
“Páginas de Combate”
Rio de Janeiro – Livraria H. Antunes – 1937 – 189 págs.
4 – Plínio Salgado
“Discursos(1ª Série – 1946/1947)” – 1ª edição
São Paulo – Cia. Ed. Panorama – 1948 – 190 págs.
5 – Plínio Salgado
“O Integralismo perante a Nação” – 4ª edição
em
“Obras Completas de Plínio Salgado” – vol. 9.
São Paulo – Editora das Américas – 1955 – 423 págs.
6 – Plínio Salgado
“Doutrina e Tática Comunistas (Noções Elementares)” – 1ª edição
Rio de Janeiro – Livraria Clássica Brasileira – 1956 – 155 págs.
7 – Plínio Salgado
“Livro Verde da Minha Campanha” – 2ª edição
Rio de Janeiro – Livraria Clássica Brasileira – 1956 – 270 págs.
8 – Plínio Salgado
“Palestras com o Povo
“(Irradiações do programa das terças-feiras na Rádio Globo em 1957 e 1958)”
Rio de Janeiro – Livraria Clássica Brasileira – 1959 – 195 págs.
9 – Plínio Salgado
“O Integralismo na Vida Brasileira”
Rio de Janeiro – Edições GRD/Livraria Clássica Brasileira – s/d – 269 págs.
“Enciclopédia do Integralismo” – Vol. I
10 – Plínio Salgado
“Discursos Parlamentares”
Seleção e introdução de Gumercindo Rocha Dorea
Brasília – Câmara dos Deputados – 1982 – 982 págs. – il.
Perfis Parlamentares – vol. 18.

A Liberal-Democracia

A Liberal Democracia
Explicação Necessária:
No dia 07 de Outubro de 1932, em São Paulo (SP), o jornalista Plínio Salgado, lança o “Manifesto de Outubro”, dando início público ao Integralismo. O movimento começa a organizar-se em todo o Brasil, e em 1933, antes mesmo que o primeiro Núcleo carioca fosse fundado na Tijuca, Plínio Salgado faz uma série de conferências no Rio de Janeiro, na primeira das quais conhece pessoalmente Gustavo Barroso, que já lera o “Manifesto de Outubro”, que lhe fora ofertado por Ovídio Gouvêa da Cunha, que por sua vez, o havia recebido das mãos de Plínio Salgado e de Miguel Reale, em reunião que com eles tivera na Capital Bandeirante, na exígua sala que servia de Sede na Av Brigadeiro Luiz Antônio, em fins de 1932. Nesse primeiro encontro, Plínio Salgado tira o distintivo com o Sigma que portava no seu paletó e o coloca na lapela de Barroso, selando simbolicamente o início de uma amizade verdadeira, e por toda a vida, entre os dois maiores Pensadores do Brasil Integral.
Ainda na Cidade Maravilhosa, Plínio Salgado entrega ao seu amigo pessoal, Integralista, Poeta e Editor, Augusto Frederico Schmidt, os originais de “O que é o Integralismo” e “Psicologia da Revolução”, os dois primeiros Livros Integralistas, que foram publicados nesse mesmo ano de 1933. O primeiro pela Schmidt, Editor e o segundo pela Civilização Brasileira, na famosa Coleção Azul, que reunia Obras sobre Cultura e Política, e que já publicara “O Brasil Errado”, de Martins de Almeida, a “Introdução à Realidade Brasileira”, de Affonso Arinos de Mello Franco, “O Sentido do Tenentismo” (com Prefácio de Plínio Salgado), de Virgínio Santa Rosa e “A Gênese da Desordem”, de Alcindo Sodré. Em 1957, na 2º edição das Obras Completas de Plínio Salgado, ambos atingiram respectivamente a 7ª e a 6ª edições.
Do segundo capítulo de “O que é o Integralismo”, denominado “A Liberal-Democracia” extraímos o trecho a seguir, em que podemos ler uma crítica exata e atual ao liberalismo.
Sérgio de Vasconcellos.




A LIBERAL-DEMOCRACIA (1933)
(excerto)

Plínio Salgado
Dissemos no capítulo anterior que o mundo é o que é, e não o que sonham os teorizadores. Nós, integralistas, pretendemos restabelecer o critério das realidades humanas. Assim, repito, em relação ao Homem, que ele deve ser tomado na verdade mais profunda da sua essência.
E não foi por outra coisa que traçamos antes de tudo, o quadro das finalidades humanas, antes de entrar no estudo político.
A liberal-democracia concebeu o "homem-cívico", a grande mentira biológica; o marxismo materialista concebeu o "homem-econômico", mentira tanto filosófica como científica.
Nós, integralistas, tomamos o homem na sua realidade material, intelectual e moral e, por isso, repudiamos tanto a utopia liberalista como a utopia socialista. A liberal-democracia pretende criar o monstro, sem estômago. O socialismo marxista pretende criar o monstro que só possui o estômago e o sexo. Em contraposição ao místico liberal e ao molusco marxista, nós afirmamos o homem-integral.
Σ
Em torno da concepção marxista se criaram fórmulas ilusórias, por serem unilaterais, como sejam o "determinismo materialista", a "proletarização das massas", a "socialização dos meios de produção", a "ditadura do proletariado", "os direitos da coletividade".
Em torno da concepção liberal se criaram essas fórmulas sediças que se denominaram "a causa pública", "a voz das urnas", "a moralidade administrativa", o "civismo", as "massas eleitorais", "a luta dos partidos", "igualdade, liberdade, fraternidade".
Em torno da nossa concepção, nós, integralistas, lançamos as fórmulas definitivas de salvação nacional e humana, exprimindo realidades tangentes: "O Estado orgânico", a "organização corporativa da Nação", a "economia orientada", a "representação corporativa", o "homem integral", o "realismo político", a "harmonia das forças sociais", a "finalidade social", o "princípio de autoridade", o "primado do espírito".
Condenando a liberal-democracia, que arrastou o mundo à crise pavorosa em que se encontra, queremos feri-la no seu próprio coração, que é o instituto do sufrágio.
O sufrágio universal, isto é, o direito de todos votarem no mesmo candidato, ainda que este não seja de sua classe, criou o absurdo de um Estado fora das competências econômicas e morais.
Esse Estado é fraco.
Esse Estado está agonizando na Europa e na América.
Ele não pode por ordem no interior, nem pode realizar nada de prático na vida internacional, para resolver em conjunto com outros Estados, as questões mais simples, como as do desarmamento, das dívidas de guerra, ou do equilíbrio da produção e do consumo.
O Estado liberal, baseado no voto dos cidadãos, desconheceu a organização dos grupos financeiros e dos sindicatos de trabalhadores. Perdeu o controle da Nação. Tornou-se uma superestrutura, para usarmos a terminologia marxista, um luxo da civilização burguesa e capitalista, uma superfluidade estranha aos imperativos orgânicos dos povos.
À sua revelia, deflagraram-se as lutas entre o Capital e o Trabalho e até mesmo entre o Capital e o Capital. O aperfeiçoamento da técnica multiplicou as possibilidades da produção, alijando o homem das fábricas, e o Estado Liberal foi impotente para manter uma uniformidade de ritmo no trabalho, que possibilizasse a colocação dos produtos e evitasse tanta miséria que se originou de tanta fartura.
O mundo está em desordem porque o Estado Liberal é fraco, é anêmico, é gelatinoso. É o Estado inerme, que assiste, de braços cruzados, à angústia das multidões esfaimadas e o desespero dos chefes de indústria, dos agricultores, que não encontram capacidade aquisitiva suficiente, nas coletividades empobrecidas e nuas, para que possam comer e vestir. Estamos assistindo ao incêndio dos estoques: o trigo, nos Estados Unidos; o café, no Brasil; os carneiros, na Holanda e na Argentina: e há tanta criança que tirita de frio e tantas famílias sem um pedaço de pão!
Σ
Chegou o instante de devolvermos aos ideólogos democráticos o presente grego do voto tal como é praticado.
Que façam bom proveito dele os que têm o estômago fornido, automóveis, mulheres, divertimentos, poder. Essa panacéia só tem servido para os demagogos exploradores das turbas e para os "gangsters" elegerem presidentes na América do Norte. Só tem servido para separar o Estado da vida econômica e moral da Nação, permitindo que os sindicatos de capitalistas de um lado, e os sindicatos de trabalhadores do outro, combatam o combate cruel dos interesses meramente materiais, afrontando a inteligência humana, desrespeitando as mentalidades superiores, as únicas que devem impor ordem e disciplina a ambos os contendores, a fim de que não desvirtuem os superiores destinos da criatura humana.
Σ
O Integralismo quer realizar uma democracia de fins e não uma democracia de meios. Quer salvar a liberdade humana da opressão do liberalismo. Quer salvar a dignidade do homem do torvo materialismo dos capitalistas e dos comunistas.
O Integralismo surge como a única força capaz de implantar ordem, disciplina. A única força capaz de amparar o homem, hoje completamente esquecido pelo Estado liberal-burguês, como aniquilado e humilhado pelo Estado marxista soviético.
Nas democracias, o homem está entregue a si mesmo.
Nos tempos de paz, os governos só se lembram dele, para lhe cobrar impostos, para lhe exigir que acorra ao serviço militar, ao júri, que atenda ao apelo para a guerra, quando for preciso. Se o homem está desempregado, que suba e desça as escadas mendigando colocação. Se está enfermo e pobre, que recorra à caridade pública. Se já não pode trabalhar, que mendigue, pois não faltarão mesmo decretos, que lhe garantirão o exercício dessa profissão. Se plantou e não tem meios de custear a pequena lavoura, que se arranje. Se é operário ou camponês, e as fábricas e as fazendas já não têm serviço, que trate de cavar por si mesmo a sua vida. Se existe superprodução de mercadorias e de braços, o mais que o governo pode fazer é oferecer-se para queimar as mercadorias, não tardando que se ofereça a aproveitar a carne dos trabalhadores sem emprego para fazer sabão. E se há conflitos de classes, que o problema seja resolvido à pata de cavalo. Ou então, que as indústrias rebentem, não podendo satisfazer às exigências do proletariado. E se há gente dormindo pelos bancos das avenidas, tal coisa não passa de uma fatalidade cujos desígnios os governos não devem contrariar...
E isso é a liberal-democracia. O regime onde ninguém está garantido: nem o capitalista, nem o operário; nem o industrial, nem o comerciante, nem o agricultor. Compreende-se que, num regime assim, cada qual trate de se salvar por meio de aventuras pessoais, muito embora os ideólogos fanáticos e os fariseus hipócritas clamem pela moralidade administrativa.
Σ
O liberalismo democrático é hoje defendido apenas pela grande burguesia e pelas extremas esquerdas do proletariado internacional.
E isso se explica. Sendo o regime que não opõe a mínima restrição à prepotência do capitalismo, é o preferido por este, que, através das burlas democráticas, exerce a sua influência perniciosa no governo dos povos, em detrimento das nacionalidades, tão certo é que o capitalismo não tem Pátria. Por outro lado, evitando a interferência do Estado na vida econômica das nações, e oferecendo ampla liberdade à luta de classes, facilita o desenvolvimento marxista do fenômeno econômico e social, preparando as etapas preliminares da ditadura comunista.[1]
Os mais fervorosos adeptos do liberalismo são os que pretendem destruir as Pátrias e o Indivíduo com suas projeções morais e intelectuais: é o argentário, o homem de grandes negócios, de um lado, e o anarquista, o comunista, de outro lado.
O ódio de uns e de outros, contra as mentalidades cultas e contra o espírito elevado e nobre das classes médias, não tem limites. Já um socialista espanhol exclamou no auge da cólera: "a pátria do capitalista é onde estão seus negócios; a pátria do proletário é onde está seu pão: só a classe média tem pátria".
Σ
Não se trata, porém, de classe média, e sim da inteligência e da cultura, da moralidade e do espírito, que criam a dignidade humana, determinando que esta paire acima das lutas mesquinhas, consciente dos superiores destinos da criatura humana.
A liberal-democracia, realmente, só aproveita aos poderosos, que exploram os pobres e os fracos, e aos demagogos marxistas, que exploram a ignorância das massas trabalhadoras, e a inexperiência dos estudantes bisonhos, mantendo-os no obscurantismo, a fim de que só aprenda a filosofia do materialismo, que os tornará mais rapidamente escravos.
Explica-se o motivo porque os grandes banqueiros, as grandes empresas jornalísticas a soldo de sindicatos financeiros ou industriais, os políticos a serviço de trustes e monopólios, os agiotas de todo jaez e os negocistas de todos os quilates vivem a proclamar as excelências da liberal-democracia e investem contra o Integralismo com todas as suas armas: é que o dinheiro não tem pátria e o seu portador não tem coração; o menor pânico num país determina a fuga do ouro para outro país, e a menor notícia de disciplina governamental em relação à vida econômica alarma os arraiais da usura eriçando o pêlo das hienas de garras aduncas.
Evidencia-se também a razão porque os marxistas toleram perfeitamente as democracias liberais. Não foi por outro motivo que os bolcheviques apoiaram Kerenski, na ocasião em que este se achava sob a ameaça de Korniloff. Representava Kerenski a revolução burguesa, que procede a revolução proletária: e Lenine sabia perfeitamente que sem o livre desenvolvimento econômico, sob a égide da democracia, não lhe seria possível o golpe de outubro.
Σ
A democracia liberal significa o país desorganizado e o governo inexpressivo das forças econômicas da Nação.
Vivendo na torre de marfim das fórmulas constitucionais delimitadoras do poder do Estado, o liberalismo é a indiferença diante do duelo de morte de duas classes. É a impotência governamental. É a fórmula inútil que serve apenas às divagações e controvérsias de juristas empedernidos.
É o suicídio da burguesia e a véspera do suicídio do proletariado.
Nós, integralistas, que pretendemos realizar a verdadeira democracia, que não é a liberal, mas a orgânica, em consonância com o ritmo dos movimentos nacionais, condenamos todas as formas de liberalismo, porque atentam contra a dignidade humana e conduzem as massas para a degradação, como conduz o homem à animalização completa.
Combatemos o voto desvalorizado e a liberdade sem lastro, pois queremos o voto verdadeiro e a liberdade garantida.
Combatemos as hediondas quadrilhas das oligarquias ao serviço dos poderosos. E, pelo mesmo motivo, combatemos a utopia socialista.
(Plínio Salgado – “O que é o Integralismo”, 6ª edição - São Paulo, Editora das Américas – 1957 – 77 págs. – “Obras Completas” Vol. 9; excerto do Capítulo II, da pág.36 até 45)



[1] Estava este livro em provas, quando o jornal burguês "O Estado de São Paulo" confessou e em artigo de crítica a um livro de Victor Vianna, as intenções do liberalismo democrático, isto é, a marcha para o comunismo, dizendo: “Não há dúvida alguma de que a evolução da humanidade para a "esquerda" é um fato indiscutível. As tendências profundas dos homens são para a emancipação de todos os indivíduos e de todas as classes, para a extinção de todos os privilégios e regalias de castas e nascimentos. A verdadeira política será aquela que coordene e não a que embarace, a evolução natural dos homens”. Ora, essa política só pode “ser realizada em regime democrático”.
Diante dessa confissão, não me cumpre mais, como paulista consciente e brasileiro, do que chamar a atenção dos meus co-estaduanos que ainda amam a Família, a Pátria e Deus, para o erro dos que ainda não vieram cerrar fileiras no "Integralismo", última expressão do espírito bandeirante.

sexta-feira, julho 04, 2008

GUSTAVO BARROSO













Sérgio de Vasconcellos

Em Outubro de 1932, Plínio Salgado fundou o Integralismo. Nos meses subseqüentes, centenas de Núcleos Integralistas surgiram por todo o País. Em fins de 1932, Ovídio Gouvêa da Cunha, um jovem estudante de Sociologia, ouvindo falar em Integralismo, dirige-se a São Paulo, e lá, encontra-se com Plínio Salgado e M. Reale, dividindo a mesma mesa, numa modesta sala na Av. Brigadeiro Luis Antônio Nº 12, a primeira Sede Nacional da A.I.B. O próprio Plínio Salgado fornece-lhe alguns exemplares do Manifesto de Outubro. Voltando ao Rio, Ovídio Cunha – que aderira ao Sigma -, encontra-se com Gustavo Barroso e entrega-lhe um dos Manifestos, que recebera das mãos do Chefe Nacional. Esse foi o primeiro contato do Autor de “Terra do Sol” com a Doutrina Integralista.
Prosseguindo em sua tarefa Revolucionária, Plínio Salgado vem ao Rio, em 1933, e pronuncia uma série de Conferências Doutrinárias no Salão da Associação dos Empregados no Comércio do Rio de Janeiro. Ao final de uma delas - em que demonstrava como a Filosofia Integralista conciliava o livre arbítrio, o determinismo e o providencialismo -, um homem dirige-se a Plínio Salgado e pede simplesmente um distintivo, o Chefe retirou o que usava na lapela e presenteou o desconhecido. Tratava-se de Gustavo Barroso, e esse foi o seu segundo e decisivo contato com o Integralismo.
Ainda nesse ano de 1933, Plínio Salgado lança os dois primeiros livros Integralistas – “Psicologia da Revolução” e “O que é o Integralismo” -, e parte junto com Thiers Martins Moreira, Capitão Aristófanes do Vale e Hermes Barcelos, na Primeira Bandeira Integralista, que singrou diversos Estados, chegando até o Ceará, de onde iniciou o retorno ao Rio de Janeiro. Em Vitória, Capital do Espírito Santo, Plínio Salgado encontra-se novamente com Barroso – que publicara “O Integralismo em Marcha”, o terceiro livro Integralista – e com Madeira de Freitas - médico afamado e escritor muito conhecido sob o pseudônimo de Mendes Fradique -, um dos principais articuladores do Movimento no Rio de Janeiro.
Gustavo Barroso, Joaquim de Araújo Lima, Plínio Salgado, Manoel Ferraz Hasslocher e Raimundo Barbosa Lima (Matinas de Abril, no Rio de Janeiro).
O ingresso de Gustavo Barroso na Ação Integralista Brasileira causara grande impacto na opinião pública, pois, Barroso era figura de projeção nacional e internacional. Fundador do Museu Histórico Nacional, Presidente da Academia Brasileira de Letras, ex-Deputado Federal, Folclorista, Historiador, Museólogo, Romancista, Contista, enfim, um homem brilhante, inteligentíssimo, com vasta produção literária em vários campos do conhecimento, só superado por Coelho Neto em quantidade de livros editados. No Integralismo foi Chefe da Milícia, e com a extinção desta, Secretário Nacional de Educação (Moral, Cívica e Física) da A.I.B. Escreveu os seguinte Livros Integralistas: “O Integralismo em Marcha”, “A Palavra e o Pensamento Integralista”, “O Integralismo de Norte a Sul”, “Brasil – Colônia de Banqueiros”, “História Militar do Brasil”, “Integralismo e Catolicismo”, “Espírito do Século XX”, “O que o Integralista deve saber”, “O Quarto Império”, “Comunismo, Cristianismo e Corporativismo” e outros. A leitura, não apenas de suas Obras Integralistas, mas de todos os seus Livros, é recomendável a todos os Brasileiros, particularmente, aos Integralistas, pois, neles se aprende Brasil.


Ovídio Cunha

O Integralismo


O INTEGRALISMO

Gustavo Barroso
O Integralismo não é um partido político, nem de modo algum deve ser confundido com qualquer partido político. Os partidos representam interesses parciais dum grupo de eleitores organizados à sombra dum programa destinado à duração dos mandatos daqueles que elege. O Integralismo põe o interesse da Nação acima de todos os interesses parciais ou partidários e se guia por uma doutrina, não por um programa.
Programa é um projeto ou resolução daquilo que se pretende fazer em um tempo determinado. Doutrina é um conjunto de princípios filosóficos, morais e científicos no qual se baseia um sistema político por tempo indeterminado. A diferença é essencial. Uma doutrina dá origem à incalculável número de programas. Um programa não produz nenhuma doutrina.
- Se não é partido, que é, então, o Integralismo? – perguntarão todos quantos se viciaram em compreender a política como simples jogo e manejo de partidos.
O Integralismo é uma Ação Social, um Movimento de Renovação Nacional em todos os pontos e em todos os sentidos. Prega uma doutrina de renovação política, econômica, financeira, cultural e moral. Prega essa doutrina, completa-a e a amplifica constantemente com seus estudos, e prepara os homens capazes de executar as medidas dela decorrentes. Abrange, nos seus postulados, indagações e finalidades, todas as atividades nacionais. Bate-se, não por um programa partidário regional ou local, - autonomista, evolucionista, constitucionalista, partido republicano mineiro, partido republicano paulista, partido democrático, etc.; mas pela construção duma Grande Pátria dentro duma doutrina que contenha princípios definidos desde as concepções do Mundo e do Homem até às dos fatores materiais econômicos.
Isto é uma Política, da qual decorre uma administração. Os partidos somente são capazes de chegar até um programa de administração. O Integralismo constrói uma Doutrina Política, em conseqüência da qual poderá formular inúmeros programas de administração.
Por isso, o Integralismo não compreende e não quer o Brasil partido, dividido: dum lado, o povo alistado em dezenas e mesmo centenas de partidos, votando em milhares de legendas que sub-partem os partidos, sempre contrário ao governo, como se este fosse seu pior inimigo; dum lado, o povo iludido pelos politiqueiros, contrapondo-se ao Estado que o esfola com os impostos; do outro, esse Estado manobrado pelo partido que dele se apoderou por meio do voto, oscilando ao sabor das forças paralelas a ele – corrilhos eleitorais ou financeiros, etc., tornado meio de satisfazer apetites, quando deve ser um fim para satisfazer o bem público; mas compreende e quer o Brasil - Unido, isto é, o Brasil - Integral, com o Estado e a Nação confundidos num todo indissolúvel.
O Estado não deve ser somente o governo, a administração dum país. A Nação não deve ser somente a comunidade dos indivíduos unidos pela origem, pela raça, pela língua ou pela religião sob o mesmo regime político. A Nação e o Estado devem integrar-se num corpo só, na mesma associação de interesses e de sentimentos, confundindo-se na mesma identidade e para os mesmo fins.
Na Doutrina Integralista, a Pátria Brasileira deve ser uma síntese do Estado e da Nação, organizada sobre a base corporativa. A sociedade humana não vale somente pelo que apresenta aos nossos olhos; vale muito mais ainda pelo que nela existe e não conseguimos ver, isto é, as forças ocultas do seu Passado e do seu Espírito. Os homens prendem-se ao Passado através de seus ascendentes, cujas características essenciais herdam, cujas conquistas morais, intelectuais, técnicas e materiais lhes são transmitidas como um verdadeiro patrimônio. Essa herança é a civilização e nela as gerações que se sucedem são solidárias.
Compostas de homens, as Nações ligam-se ao passado pelas suas tradições de toda a espécie. Enraizada nelas é que a Pátria Brasileira deve florescer no Presente para frutificar no Futuro.
O regime corporativo une os sindicatos de trabalhadores, de técnicos e de patrões, coordena seus esforços e transforma-os de organismos políticos de luta em organismos políticos, sociais, econômicos, morais, educativos, de equilíbrio e de cooperação.
Afim de realizar o que pretende, o Integralismo não apela, como os extremistas, para a brusca subversão da ordem social e conseqüente inversão de todos os seus valores, para os atos de banditismo, vandalismo ou terrorismo, para bombas de dinamite e atentados pessoais, para sabotagens e greves que ainda mais precária tornam a situação do pobre operário; mas para o valor do próprio homem, sua dignidade de ser pensante, suas virtudes patrióticas, suas reservas morais, sua tradição religiosa e familiar, seu amor pelo Brasil, sua crença em Deus!
Querendo a grandeza da Pátria Brasileira, o Integralismo por ela se bate em todos os sentidos. Essa grandeza somente pode alicerçar-se na alma das massas trabalhadoras de todo o país, libertadas ao mesmo tempo da exploração econômica do capitalismo sem pátria e da exploração política dos caçadores de votos ou dos extremistas fingidos, que falam em nome de operários e camponeses sem serem nem operários, nem camponeses.
Pelo Integralismo, a grandeza da Pátria Brasileira se fará pela renúncia dos interesses pessoais em favor dos interesses nacionais, a pureza dos costumes públicos e privados, a simplicidade da vida, a modéstia do proceder, a integridade da família, o respeito à tradição, a garantia do trabalho, o direito de propriedade com seus deveres correlatos, o governo com autoridade moral e mental, a unidade intangível da Nação e as supremas aspirações do espírito humano.
Integralismo quer dizer soma, reunião, integralização de esforços, de sentimentos, de pensamentos, ao mesmo tempo de interesses e de ideais. Não pode ser um simples partido. É coisa muito mais elevada. É um movimento, uma ação, uma atitude, um despertar de consciências, um sentido novo da vida, a marcha de um povo que desperta!
Batendo-se pela felicidade do Brasil dentro das linhas de seus grandes destinos, condicionadas pelas suas realidades de toda a ordem, o Integralismo quer que o pensamento dos brasileiros não se divida e enfraqueça na confusão de doutrinas ou programas; quer que se una e some ao influxo de uma mesma doutrina político-social. Porque essa base doutrinária é imprescindível para a construção do ESTADO INTEGRAL BRASILEIRO, ESTADO HERÓICO pela sua capacidade de reação e de sacrifício, ESTADO FORTE pela sua coesão, sem fermentos desagregadores dentro de si, no qual, como fator indispensável de independência, se tenha processado a emancipação econômica e, como condição principal da unidade da Nação, tenham desaparecido as fronteiras interestaduais.
Para a realização de tão grande obra política, econômica e social, o Integralismo tem de combater sem tréguas e sem piedade toda a repelente imoralidade do atual regime de fraudes, enganos, corrupção e promessas vãs, bem como todo o materialismo dissolvente da barbárie comunista que alguns loucos apontam como salvação para nosso país. O atual regime pseudo-liberal e pseudo-democrático é um espelho da decadência a que chegou o liberalismo, que procurou dividir a nação com regionalismos e separatismos estreitos, implantando ódios entre irmãos, atirados às trincheiras da guerra civil; com partidos políticos transitórios que sobrepõem as ambições pessoais aos mais altos interesses da Pátria e pescam votos, favorecendo os eleitores com um imediatismo inconsciente, em que tudo concedem ou vendem, contanto que atinjam as posições.
Esse regime fraco e vergonhoso escravizou o nosso Brasil, o pouco capital dos brasileiros e o trabalho das nossas populações abandonadas ao banqueiro internacional por um criminoso sistema de pesados, aladroados e sucessivos empréstimos externos, cuja funesta e primeira conseqüência é o esfolamento pelos impostos.
O comunismo que agitadores estrangeiros, aliados a brasileiros vendidos ou inconscientes, inimigos da Pátria, nos prometem, quer a destruição das pátrias, da propriedade e da família, a proletarização das massas e a materialização do homem em todos os sentidos. Tirando ao indivíduo suas crenças e tradições, sua vida espiritual e sua esperança em Deus, sua família – que é sua projeção no Tempo -, e sua propriedade – que é sua projeção no Espaço -, arranca-lhe as forças de reação, todos os seus sentimentos, deixa somente a fera humana e prepara-o, assim, para definitiva escravização ao capitalismo internacional disfarçado em capitalismo de Estado.
O Povo Brasileiro debate-se em verdadeira angústia econômica e anseia por novo padrão de vida; debate-se numa completa desorganização de sua existência pública e almeja nova forma de justiça social; debate-se em formidável anarquia de valores e na incultura geral, e precisa formar sem detença homens escolhidos que possam resolver os grandes e graves problemas da Nação.
Urge a transferência completa do Brasil para salvá-lo, novo conceito de vida, novo regime, novo quadro de valores. Essa transformação completa, integral da Sociedade Brasileira fatalmente terá de ser o resultado duma transformação completa, integral da Alma Brasileira no sentido do rigoroso cumprimento de todos os deveres para com a Família, para com a Pátria e para com Deus.
A lição de Jacques Maritain manda a Razão submeter-se a Deus, que é Espírito, e à Ordem Espiritual por Ele instituída.
Só uma Revolução Moral pode produzir uma grande, digna e benéfica Revolução Social. Porque esta é projeção daquela. Por isso, a Doutrina Integralista afirma que a primeira revolução do Integralismo é a Revolução Interior.
(Transcrito das págs. 9 até 16 de “O que o Integralista deve saber”. 1ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1935, 214 págs.)